Elogie uma miga negra

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Quando eu decidi largar a química e deixar que meu cabelo voltasse ao seu estado “natural”, eu imaginei que várias coisas iriam acontecer. Imaginei que muita gente iria estranhar, que quando eu fizesse o Big Chop* muita gente iria torcer o nariz, imaginei também como ir em uma balada com ele todo crespo, imaginei minhas novas fotos, mas tem uma coisa, uma única coisa, e talvez a mais importante de todas, que eu não imaginei.

O laço que eu criaria com milhões de mulheres negras quando o meu cabelo ficasse todo crespo novamente.

A primeira vez que eu percebi que algo tinha mudado, foi exatamente no salão em que cortei meu cabelo. Recebi olhares lindos e compreensivos de todas as mulheres presentes, nem todas eram negras, claro, mas foram os olhares delas que me deram força para sair daquele salão e encarar a realidade: uma realidade em que algumas cabeças viram para te olhar, algumas caretas são feitas e, até mesmo, alguns comentários no meio do caminho.

Foi andando na calçada que eu vi, pela segunda vez, aquela mudança. Uma moça, negra como eu, de cabelo crespo como eu, que sorriu para mim ao passar do meu lado. Eu sorri de volta. Foi a primeira vez de muitas que viriam. E depois dela eu aprendi uma nova coisa: a elogiar, sempre que eu tivesse oportunidade, uma mulher negra. E não importa a idade. Crianças, adolescentes, jovens adultas, adultas e idosas.

A vida toda, tudo e todos, sempre jogaram com letras garrafais que não somos bonitas.

Sem livros com meninas negras protagonistas – pelo menos, não os livros mais famosos e, muito menos, livros que viraram filmes. Sem novelas com mulheres negras protagonistas ou, no mínimo, uma mulher negra que não fosse somente a melhor amiga da protagonista. Sem filmes com meninas, adolescentes, mulheres negras como protagonistas.

E, apesar de, em nenhum desses momentos não estarem gritando na nossa frente que não somos bonitas, nós sempre nos perguntamos porque não estamos ali.

Por que não estamos ali?

A resposta sempre parecia simples: não estamos ali, porque não somos aceitáveis o suficiente. E se não somos aceitáveis, não somos bonitas. É bem óbvio, não?

E, antes que você comece a pensar em como esse texto parece tão fútil falando sobre beleza o tempo todo. Não é só sobre isso. A questão é muito mais do que somente beleza. É o fato de que, a vida toda, estarmos sempre no canto, jogadas para escanteio, esquecidas. O fato da mulher negra nunca ser considerada importante o suficiente para sequer ser representada corretamente em um livro, filme ou novela.

E é exatamente por isso que toda vez que eu tenho a oportunidade de elogiar uma miga negra, eu elogio. E, claro, todas as migas negras – não só as migas negras que usam o cabelo natural. Comigo, deixar meu cabelo natural foi uma transição na minha vida, em todos os sentidos. Foi isso que me deu força, coragem e vontade de trazer o mesmo para outras meninas.

Mas você não precisa deixar seu cabelo natural para trazer força para si mesma e outras meninas como você.

Então, é esse meu conselho.

Quando você estiver em um ônibus (ou em qualquer outra situação) e uma miga entrar e seus olhares se encontrarem: dê um sorriso. Olhe com carinho. Diga um elogio. Demonstre que você se importa. Demonstre que você sabe exatamente o que é ser uma mulher negra no Brasil. Demonstre que, mesmo que vocês não se conheçam, que mesmo que vocês nunca mais se vejam, você se importa com ela. Você se importa porque sabe que ela tem uma diária só por ser uma mulher negra.

Então, miga. Elogie! Você pode mudar o dia de uma miga.

*Big chop: o “grande corte”. Aquele momento em que decidimos cortar toda a parte com química do cabelo.

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Extensão do projeto de mídia digital "Meu Cabelo Crespo é amor" voltado para o empoderamento sobre cabelos crespos e cacheados. Aqui você encontra uma reunião de textos e vídeos relacionados com os assuntos abordados na página do Facebook e no perfil do Instagram, assim como representatividade, feminismo, a questão racial e outros.
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O ‘Meu cabelo crespo é amor’ foi criado pela jornalista Olívia Pilar – negra, crespa e feminista. O desejo de ter um projeto de mídia digital sempre existiu, mas precisava ser algo que pudesse realmente fazer a diferença (ou que ao menos fosse uma tentativa). Criar o blog é uma forma de comentar assuntos que completam a temática inicial abordada na página.
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