Um dreadlock não é só um dreadlock

“Bom, meu nome é Alayê Imirá, tenho 22 anos. Meu nome e dos meus irmãos são de origem Africana. Addaê Abaré, o mais velho, significa Sol Nascente, Ayana Odara, a mais nova, Flor de Formosura. Meu nome significa “Possuidor de Vida”. Desde sempre nós tivemos contato com a cultura africana e já nascemos inseridos no meio do Movimento Negro de Belo Horizonte. Nossos pais sempre foram muito ativistas e sempre nos foi passado a importância de ser um negro assumido no Brasil. Por eles serem professores também, a educação dos filhos sempre foi a maior prioridade.

Eu estudei grande parte da minha vida em escola particular e ficava incomodado por ser um dos poucos negros do colégio inteiro. Não entendia, mas ficava incomodado por não ter tantas pessoas parecidas comigo. Digo parecidas sem usar aspas, porque realmente eu era diferente dos meus outros amigos brancos. O modo de tratamento era completamente diferente, o olhar, as atitudes, brincadeiras…

Eu tinha apenas 11 anos quando deixei meu cabelo crescer e trancei pela primeira vez. Era um domingo de tarde, eu estava assistindo um jogo do Galo (Atlético MG) no bar do Cacá no Bairro São Paulo junto com meu irmão. Não esqueço esse dia porque foi a maior dor que senti para aquela idade. Minha mãe e avó estavam lá e a cada lágrima que caía do meu rosto eu ouvia: “Esse é o sacrifício da beleza, meu filho.” Isso me trazia um conforto e mais força para continuar fazendo as tranças.

Fiquei aliviado quando acabou e me olhei no espelho e vi aquele cabelo trançado com lã, sem poder mexer muito o pescoço para não puxar na nuca e trazer mais dores ainda.

Apesar de toda a dor, o esforço valeu a pena. O outro dia era dia de escola e eu fui de boné, porque não me sentia muito à vontade para mostrar meu novo cabelo para meus colegas brancos de classe. Até porque eu sabia, de uma certa forma, que eu não seria bem recebido e eles não me deixariam em paz enquanto as tranças estivessem na minha cabeça. Ouvi risos quando tirei o boné na classe e uma voz sarcástica lá do fundo falando: “olha o cabelo dele…”.

Fiquei um pouco envergonhado, porque eu ouvi da minha família que o meu cabelo estava tão lindo e os colegas de classe ficaram dando risada como se fosse a coisa mais feia do mundo. Quando cheguei em casa e falei com minha mãe que o pessoal caçoou o meu cabelo e eu queria cortar, minha mãe me chamou no canto e disse: “Filho, você é diferente! Seu cabelo está lindo. Não deixe que ninguém fale que você é feio, porque você não é. Use seu cabelo assim, porque está muito além da sua beleza. Isso te traz uma identidade que vem de nossos ancestrais.” Foi aí que tive meu primeiro contato com essa importância de ancestralidade e a força que eu carregava comigo.

Eu percebi que as pessoas não ficavam preocupadas em saber a respostas das inúmeras perguntas que eram feitas para mim, mas eles ficavam incomodadas mesmo ao me ver com o cabelo black ou trançado.
Elas ficam incomodadas com o fato de assumirmos e fazem de tudo para que nós fiquemos constrangidos a ponto de desistir da ideia de ter um cabelo nosso. Assumidamente negro. Querem nos impor uma ideia de que cabelo liso é o bonito de acordo com os padrões, mas nós já estamos fora do padrão imposto por sermos negros (ou diferentes deles).

Tem um ditado que diz que o nosso corpo mostra o que nós somos. Acho que um preconceituoso vai chegar com mais respeito para um negro ao falar de questões políticas negras. Eles vão falar com mais respeito com uma mulher negra de turbante. A partir do momento que se têm a autoafirmação, a responsabilidade de lidar com o contexto histórico negro tem que ser trazido com muita autoridade.
Um dreadlock não é só um dreadlock. Tudo isso tem um contexto que tem que ser respeitado e valorizado, como já disse.

A dificuldade existe desde sempre. As pessoas olham com um olhar diferente, mas também olham com um receio de nos reprimir. Mas o que mais me fortalece é ver nosso povo colocando o cabelo para o alto e saindo assim para o dia a dia. Somente nós sabemos o que passamos. Só nós sabemos da dificuldade de arrumar um emprego que exige “boa aparência”. Sobre batidas policiais, já não sei quantas vezes fui parado. Nunca usei nenhum tipo de droga, mas sempre tenho cara de suspeito.

Vamos nos fortalecer! Somos o que somos e ninguém poderá nos mudar!”

Texto do convidado Alayê que foi muito legal ao aceitar contar um pouquinho da história dele <3 Se você também quer aparecer aqui, gosta de escrever e tem um relato legal e que pode servir de motivação para outras pessoas, só enviar um e-mail para meucabelocrespoeamor@gmail.com que a gente conversa sobre!

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Extensão do projeto de mídia digital "Meu Cabelo Crespo é amor" voltado para o empoderamento sobre cabelos crespos e cacheados. Aqui você encontra uma reunião de textos e vídeos relacionados com os assuntos abordados na página do Facebook e no perfil do Instagram, assim como representatividade, feminismo, a questão racial e outros.
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O ‘Meu cabelo crespo é amor’ foi criado pela jornalista Olívia Pilar – negra, crespa e feminista. O desejo de ter um projeto de mídia digital sempre existiu, mas precisava ser algo que pudesse realmente fazer a diferença (ou que ao menos fosse uma tentativa). Criar o blog é uma forma de comentar assuntos que completam a temática inicial abordada na página.
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